Arquivo mensal: julho 2011

Normal? Eu sou normal! Mas nem sempre pensei assim…

Foi difícil aceitar que diferente dos meus amigos que contavam abertamente sobre as meninas que eles ficavam em festas que chamávamos de teens, eu nunca poderia dividir com eles sobre os meninos que eu ficava. Que enquanto eles desfilavam pela escola de mãos dadas com uma menina, eu nunca poderia fazer o mesmo, pois sofreria represália. Que enquanto meu irmão casaria na Igreja e daria netos aos meus pais, eu não poderia fazer a mesma coisa.

E eu sofri. Minhas notas na escola sentiram, meus amigos sentiram meu distanciamento, meus pais sentiram meu desespero. Em um primeiro momento, encarei como uma maldição. “Por que eu?”, eu pensava. O período de maior desgaste foram os seis primeiros meses após eu ter dito a mim mesmo: sou gay. E durou até o momento em que dei meu primeiro beijo gay, no segundo colegial. Após, com o fim do colegial e começo da faculdade, as coisas começaram a se encaixar melhor em minha cabeça.

E como uma supernova, eu eclodi, para um mundo novo, onde encontrei grandes amigos e pude descobrir quem realmente sou, com desejos, anseios, necessidades, como qualquer outro ser humano. A ideia que eu tinha de que na dúvida entre ficar do lado do mundo ou do meu lado em uma batalha, eu deveria apostar no mundo, nesse caso, mudou: eu deveria acreditar em mim e enfrentar o mundo, independente do que pudesse acontecer!

E o melhor: descobri que independente da minha condição sexual – pois realmente não é uma opção – , eu sou um ser capaz de ter caráter e moral, vivendo da melhor forma possível, atrás apenas de um ideal: ser feliz.

Meu momento

É. Eu sempre soube. Eu sempre fui. Pra mim, era natural. Sempre me interessei mais pelos meninos do que pelas meninas e só fui me sentir diferente na escola, quando meus amiguinhos vinham me falar sobre o que achavam das meninas e tudo mais.

Foi quando eu percebi que eu era diferente. Isso foi trágico. Desencadeou grandes sentimentos dentro de mim. Eu me afastei de mim e comecei a viver alguém que eu não era. Eu queria ser aceito.

Assim foi durante toda minha vida escolar, eu era e não queria ser. Eu queria ser como os outros meninos e para isso, eu buscava me aproximar deles, me tornar seu amigo, se possível, o melhor. Quem sabe assim, eu aprenderia a ser como eles? Bom, assim eu pensava.

Não adiantou. Nada mudou e eu continuava preso e infeliz, dentro de mim mesmo, dos meus livros e dos meus brinquedos. Nunca fui um criança solitária e isolada, sempre tive muitos amigos, mas sempre usei uma máscara, pra não mostrar quem eu era de verdade e pra não decepcionar aqueles que eu prezava tanto.

Na fase de minha adolescência, encontrei uma muleta que me serviu por 7 anos. A igreja. Eu podia não ficar com garotas, não ceder as investidas delas e nem dos meninos, quando tentavam me empurrar pra uma. Eu buscava ser puro e santo.

Passei pelo ensino fundamental e pelo ensino médio assim, diferente, não por ser o que eu era e sim por ser ‘santo’. Quando cheguei na faculdade, carregava dentro de mim muitos medos e angústias, afinal, poderia começar tudo de novo, os comentários e as indagações dos outros.

Não foi diferente. Todos dizem que a faculdade é o lugar onde exorcizamos os demônios, aprontamos e tudo mais, por que, ou se faz ali, ou não se faz mais.

Eu fiz o caminho inverso. Entrei em ostracismo e tentei provar, durante 4 anos, que eu era uma pessoa que eu não era. Eu tinha medo e ainda não era meu momento.

Sempre fui um enorme ponto de interrogação na mente das pessoas, e eu gostava disso. Só não gostava quando elas insistiam em decifrar a charada.

Imaginem só, passar 4 anos procurando esconder seu verdadeiro eu e com medo. Muito medo. Muitos querendo te ajudar e você não querendo ser ajudado. Complicado, não?

Enfim, chegou a formatura e automaticamente minha mente e minha alma se sentiram leves e juntas, decretaram, era o fim. O fim da máscara, o fim do medo e o fim do esconderijo. Agora, eu estava livre. Afinal, a faculdade havia acabado e dali, eu só levaria pra minha vida quem eu realmente queria e essas pessoas, mereciam me conhecer de verdade.

Por ironia do destino, ou não, no dia do baile…aconteceu o meu primeiro beijo gay. Foi diferente. Diferente de tudo que eu já havia sentido e provado. Daquele em dia em diante, eu me aceitei e não lutei mais contra mim mesmo. Eu era gay e não podia mudar isso. Era mais forte que eu e além de tudo, era bom.

Desde então eu tenho agido de uma forma diferente, passei a contar para os meus amigos mais próximos e tenho sido eu mesmo, pela primeira vez na vida, protagonista da minha própria história.

Como tudo começou

Talvez eu soubesse desde o início, desde as brincadeiras inocentes com o filho do caseiro com sete anos de idade. Talvez antes disso, quando eu preferia brincar sozinho atrás da minha cama ao invés de me misturar com o resto dos meninos no campo de futebol da chácara.

A  internet entrou em minha vida aos doze anos e abriu porta para uma grande experiência: eu podia conversar com pessoas que eu não sabia quem eram e ir atrás de uma coisa que eu ainda não entendia muito bem, mas que me dava uma sensação boa, que anos mais tarde fui descobrir que era o algo que chamamos de prazer.

Quando descobri que meu corpo poderia me dar prazer, meus pensamentos para que isso ocorresse eram difusos. Iam de coisas que eu sabia que eram “certas” a coisas que eu não entendia o porquê pensava: professores, homens que nunca vi, atores, desenhos animados…

Aos 16 anos, o choque: eu era. Eu sabia, no meu íntimo, sem precisar fazer nada. Pela maneira que eu olhava os meninos mais velhos na escola, pelo calor que eu sentia ao ver alguém sem camiseta na aula de Ed. Física ou pela televisão, pelas fotos que eu encontrava perdidas no espaço cibernético.

Mas eu não queria ser! E foi nessa crise existencial – que será discutida em outro post, aliada a internet e meus desejos secretos que dei meu primeiro beijo gay. Foi bom, com uma pessoa especial, mas ainda não achava correto. O pedido de namoro que ele fez à mim foi recusado. E assim, eu iniciei uma vida dupla, sendo uma coisa para a sociedade, amigos e família e outra, verdadeira, para mim, mas sempre lutando contra, querendo ser normal.

A Estação 47!

Sabe quando você, sabe-se lá porque, começa a sair com um grupo de pessoas e de repente descobre uma infinita afinidade com essas pessoas?  Sabe quando você, sabe-se lá porque, começa a discutir ideias e dividir segredos com esse grupo? Pois é, a Estação 47 nasceu exatamente de um momento como esse.

Mas porque Estação 47?

Essa é uma boa pergunta. Na verdade o nome surgiu de uma grande – e bem humorada, diga-se de passagem – brainstorming. Mas, se me dão a permissão, gostaria de desmembrar o nome.

Estação, assim como na música de Maria Rita Mariano, “Encontros e Despedidas”, veio do sentimento de que cada um de nós tem experiências e vivências próprias a compartilhar com o mundo.

47 surge da simples ideia: são quatro pessoas e sete cores! As sete cores remetem ao nosso estado de espírito gay, alegre, a esperança de encontrar no fim do arco-íris o pote de ouro, ou de amor.

Qual a intenção?

Nossa intenção é apenas dividir experiências, mostrar nossa visão de mundo, querer ser uma chave que possa ajudar de forma indireta. Quem sabe uma de nossas histórias não ajuda a esclarecer algo que está acontecendo com você? Ou melhor… que dê à você a vontade de tentar algo parecido?