Em frente ao espelho

Como tudo em minha vida, um dia acordei e senti que algo havia mudado.
Tinha deixado de ver aquilo que vivia como uma aventura. Não era, simplesmente, uma pessoa, um sentimento infantil, era desejo, era um querer que não conseguia controlar, uma atração. Tinha deixado de ser uma fase, como eu pensava até aquela manhã.

Tenho que confessar que me senti feliz, plenamente feliz, como se naquela momento em frente ao espelho eu tivesse vendo minha imagem pela primeira vez. Gostei do que vi. Sorri. Porém como todos nós sabemos, nem sempre, ser nós mesmos é fácil, ainda mais quando se é ‘diferente’. Caiu a ficha de que as barreiras e as lágrimas seriam intensas, senti medo de ferir quem tanto amava por ser quem eu acabava de descobrir.

Passaram – se os meses e a coragem não vinha até mim para eu contar tudo aos meus pais, aos meus amigos, as pessoas que eu tanto queria por perto. Acabei me afastando cada dia mais de todos e me aprisionando em meu mundo. Conheci outras pessoas, as quais passavam pelo mesmo que eu. Me apaixonei pela falsa sensação de liberdade, mas me faltava aquela aceitação. Eu me culpava por saber que não era o que deveria ser, pelo menos assim eu pensava. Como eu poderia gostar de algo que era errado? Como eu diria isso? Porque eu sentia o que sentia? E assim se passaram mais meses, anos, e a tentativa de me enquadrar, de ser como a maioria, continuava me matando e a cada manhã a imagem no espelho se tornava mais distorcida, menos eu.

E então a pior fase começou, queria fugir daquela dor de qualquer maneira, encontrei maneiras ilegais para isso, coisa que me arrependo até hoje. Mais um ano se passou e a dor apenas aumentava. Comecei a abstrair tudo. Vesti a mascara e mergulhei nos estudos. Ano de vestibular, com problemas em casa. Esqueci de mim. Mais um ano, cursinho pré – vestibular. Esqueci de mim. E então a reviravolta aconteceu, eu com 19 anos, com o mundo aos meus pés e a infelicidade em meu coração, conheci as pessoas que fariam eu ver tudo com outros olhos. Com os meus.

Conheci uma menina na internet, esta que hoje está entre as pessoas que mais amo no mundo, me apaixonei, nos conhecemos, ficamos, e um post mudaria tudo. Resumindo a desgraça mais bem vinda, meus pais descobriram, e o que eu mais temia foi o que me trouxe de volta. Obviamente não foi o melhor momento de todos, meus pais são ótimos, não que eles aceitaram de cara, mas respeitaram. Perceberam o que a maioria das pessoas não percebem, Não é uma escolha, Nasci assim, não sou por que quero ou por “modinha’, eles me conhecem sabem que eu não sou de ‘modinhas’.

E foi basicamente isso, aconteceu sem querer a descoberta deles e a minha durou anos, nem todos bons, por sinal pouquíssimos bons. Chorei muito até conseguir me olhar no espelho e me ver, ver realmente, sem medo, sem preconceito, sem sentir que eu estava errada.

Hoje quando me olho e tenho um flashback de tudo que passei, sinto aquela mesma felicidade que senti, e posso dizer que nestes segundos eu sou a pessoa mais feliz do mundo por ser GAY.

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Sobre GingerSin

Autenticidade e teimosia com pitadas de sarcasmo. Amante de culturas, com o intrínseco desejo de pisar em cada continente e molhar os pés em cada mar. Formação técnica em Moda e Estilo. Brasileira e italiana com um pitadinha de alemã. Não vive sem música, de Mpb a Rock. Amante da culinária em geral. Apaixonada por séries e livros. Morre por ombros, ainda mais se estes fizerem parte de um corpo feminino. Viciada em conhecimento.

Publicado em agosto 9, 2011, em A descoberta, The Ginger. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. É interessante quando paramos pra pensar no passado e conseguimos ver as coisas de um modo diferente do que víamos naquele momento; como é mais fácil ser verdadeiro, sem máscaras, quase como se estivéssemos em uma terapia de regresso para corrigir erros e transpor traumas.

    Parabéns, amei o texto!

  2. Amei o texto, me vejo nele tb. Creio que todos fugimos e tb nos encontramos no espelho.

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