O casamento

Estamos no outono e em um outono lindo, daqueles com folhas secas caindo das árvores, pássaros cantando, sol ameno e aquele sentimento de cuidado e aconchego vindo pelo ar, afinal, the winter is coming. Nosso dia é um sábado, um belo sábado de outono. São 18h e os pouquíssimos convidados já começaram a chegar e a se aconchegar nas cadeiras dispostas no campinho de futebol da chácara alugada. A piscina está praticamente cheia e a água está cristalina, mas está fazendo um friozinho e é melhor não arriscar ficar muito próximo ou andar pelas beiradas.

Estou nervoso, muito nervoso! Esperei tanto por esse momento e não quero que nada nem ninguém estrague esse dia tão especial pra nós dois.

Nossos familiares e amigos já vieram nos cumprimentar e dizer o quanto estão felizes pela nossa decisão. Agradecemos envergonhados, pois afinal, é uma situação bem diferente de tudo que já vivemos e receber esse apoio incondicional deles é algo muito gratificamente pra nós.

O juíz que vai celebrar o casamento, vulgo contrato de união estável, já chegou e está esperando pacientemente no lugar que lhe foi reservado. Enquanto espera, o homem da lei toma uns “bons drink”.

Enfim, chegou a hora e eu estou tremendo.

Desde que chegamos ao local, ficamos pouquíssimo tempo juntos, pois ele tem que dar atenção à seus amigos e familiares e eu aos meus. Só de vez em quando que nos trombamos ou nos olhamos e entre um risinho e outro, entendemos o que queremos dizer de verdade.

O juíz chama a atenção de todos e faz um breve discurso a respeito da diversidade sexual e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Enquanto ele discursa, nós estamos lá no fundo, rindo, de mãos dadas e esperando a hora de “entrar” e seguir em direção à ele.

Ao fim do discurso, eles nos chama pra entrar. Entramos juntos e vestindo o mesmo modelo de traje, ambos brancos e com detalhes em prata. Enquanto caminhávamos os poucos metros de distância entre nós e o advogado, percebemos os olhares calorosos e úmidos de nossos amigos e familiares.

Já diante dele, de costas para os convidados, que estão em pé e em um silêncio profundo, quase sepulcral, ele começa o segundo discurso. Que espero, seja breve. Discursa sobre a decisão de se unir, a responsabilidade que um terá sobre a vida do outro a partir de agora e sobre as dificuldades que, juntos, teremos que enfrentar.

Dito tudo, nos pede pra assinar o documento e chama as testemunhas à fazer o mesmo. Em seguida nos entrega as alianças e pede pra fazermos nossos votos antes de fazer a troca.

Pego a aliança dele delicadamente das mãos do advogado e começo meus votos, ao fim, coloco a aliança em seu dedo anelar esquerdo e ele faz o mesmo comigo, recita seus votos e coloca a aliança em meu dedo anelar esquerdo.

Feito isso, viramos, com os olhos marejados de lágrimas, para o juíz que, enfim, diz: “pelo poder que a lei me dá, vos declaro oficialmente participantes de uma união estável.”

As palavras dele, pra nós, soaram assim: “pelo poder que a lei me dá, vos declaro casados.”

Depois de tudo isso, as luzes se apagaram, os garçons começaram a servir as bebidas e o deejay começou a tocar. Esse momento tão especial precisava de uma balada épica, pra deixar marca e fazer história.

Eu estava dançando, bebendo e me divertindo com meus amigos quando ele segurou meu braço e sussurou no meu ouvido: “amor, vem comigo”. Fui. Ele me levou pra um campo mais aberto, longe da festa e disse: “te trouxe aqui pra ver as estrelas comigo e pra dizer que hoje, eu sou o homem mais feliz do mundo, te amo”.

Nos beijamos com somente as estrelas e nossos corações como testemunhas.

Ps: Até quando isso será ficção?

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Sobre The Silly

Um perfeito reclamão, extremamente afobado e muito desastrado. Quero tudo e quero agora. Comunicador por formação e por paixão. Brasileiro com passaporte turquesa. Ouço todo tipo de música, mas é com o bom e velho pop/rock que eu me entendo bem. Adoro comer e não vivo sem chocolate. Canceriano clichê e romântico fundo de quintal. Leio muito e coleciono toys. Morro com barbas por fazer (de preferência clarinhas). Harrymaníaco incurável.

Publicado em março 12, 2012, em Histórias, Pensamentos, The Silly e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Ain que lindo… eu quero ser convidada viu!…
    O meu será mais ou menos assim, também!… um dia eu posto aqui…

    Quanto ao tempo, pense o seguinte, melhor demorar e ser pra sempre do que agora e que acabe no instante seguinte…
    Relacionamento estável e muito mais que a troca de alianças e a festa, é cotidiano, chatices e por varias vezes brigas e desentendimentos. Rotina e contas.
    Logico que tem o lado perfeito, do companheirismo, do amor, do coração aquecido em todos domingos a noite, do cinema de mãos dadas e das palavras e ombros a cada pequeno tombo…

    Mas tudo tem seu tempo… por enquanto curta a descoberta disso tudo aos poucos talvez até com pessoas diferentes, pois quando A pessoa chegar, será perfeito intenso e pra sempre.

    lindo texto… amei!!!!

  2. Querido The Silly, o texto é ótimo, a ideia fantástica, adorei! De sua nova amiga, a “escritora”, beijos.

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