O amor e a morte

O amor e a morte – os dois personagens principais da história sem trama nem desfecho, mas que condensa a maior parte do som e da fúria da vida – admitem, mais que quaisquer outros, esse tipo de devaneio/escrita/leitura.

Para Ivan Klima, poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta a repetição, não permite recurso, nem promete prorrogação. Deve sustentar-se “por si mesmo” – e consegue. Cada um deles nasce ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o caráter supérfluo das tramas passadas e a futilidade dos enredos futuros.

Nem no amor nem na morte pode-se penetrar duas vezes – menos ainda que no rio de Heráclito. Eles são, na verdade, suas próprias cabeças e seus próprios rabos, dispensando e descartando todos os outros.

Bronislaw Malinowski ironizava os difusionistas por confundirem coleções de museu com genealogias. Tendo visto toscos utensílios de pederneira expostos em estojos de vidro diante de instrumentos mais refinados, eles falavam de uma “história das ferramentas”. Era, zombava Malinowski, como se um machado de pedra gerasse outro, da mesma forma que, digamos o hipparion deu origem, na plenitude do tempo, ao equus caballus. Os cavalos podem derivar de outros cavalos, mas as ferramentas não têm ancestralidade nem descendência. Diferentemente dos cavalos, não têm uma história própria. Pode-se dizer que elas pontuam as biografias individuais e as histórias coletivas dos seres humanos, das quais são emanações ou sedimentos.

Quase o mesmo se pode dizer do amor e da morte. Parentesco, afinidade, elos causais são traços da individualidade e/ou do convívio humanos. O amor e a morte não têm história própria. São eventos que ocorrem no tempo humano – eventos distintos, não conectados (muito menos de modo causal) com eventos “similares”, a não ser na visão de instituições ávidas por identificar – (por inventar) – retrospectivamente essas conexões e compreender o incompreensível.

Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morres. E não se pode aprender a arte ilusória – inexistente, embora ardentemente desejada – de evitar suas garras e ficar fora de seu caminho. Chegado o momento, o amor e a morte atacarão – mas não se têm a mínima ideia de quando isso acontecerá. Quanto acontecer, vai pegar você desprevenido. Em nossas preocupações diárias, o amor e a morte aparecerão ab nihilo – a partir do nada. Evidentemente, todos nós tendemos a nos esforçar muito para extrair alguma experiência desse fato; tentamos estabelecer seus antecedentes, apresentar o princípio infalível de um post hoc como se fosse um propter hoc, construir uma linhagem que “faça sentido” – e na maioria das vezes obtemos sucesso.

Precisamos desse sucesso pelo conforto espiritual que ele nos traz: faz ressurgir, ainda que de forma circular, a fé na regularidade do mundo e na previsibilidade dos eventos, indispensável para a nossa saúde mental. Também evoca uma ilusão de sabedoria conquistada, de aprendizado e sobretudo de uma sabedoria que se pode aprender, tal como aprendemos a usar os cânones da indução de J.S. Mill, a dirigir automóveis, a comer com pauzinhos em vez de garfos ou a produzir impressão favorável em nossos entrevistadores.

No caso da morte, o aprendizado se restringe de fato à experiência de outras pessoas e portanto constitui a ilusão in extremis. A experiência alheia não pode ser verdadeiramente aprendida como tal; não é possível distinguir, no produto final da descoberta do objeto, entre o Erlebnis original e a contribuição criativa trazida pela capacidade de imaginação do sujeito. A experiência dos outros só pode ser conhecida como a história manipulada e interpretada daquilo por que eles passaram. No mundo real, tal como nos desenhos de Tom & Jerry, talvez alguns gatos tenham sete vidas ou até mais e talvez alguns convertidos possam acreditar na ressureição – mas permanece o fato de que a morte, assim como o nascimento, só ocorre uma vez. Não há como aprender a “fazer certo na próxima oportunidade” com um evento que jamais voltaremos a vivenciar.

Autor: Zygmunt Bauman, em “Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos”

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Sobre The Serious

Capricorniano nato, organizado e extremamente perfeccionista. Idealizador, que quer conhecer o mundo todo. Turismólogo por formação. Brasileiro e orgulhoso disso! Ama bife de picanha com arroz, feijão, farofa e batata frita e não abre mão de uma boa dose de Absolut, seja com coca, com suco, com gelo. Leitor ávido de todos os tipos de livro. Ouve todo tipo de música, de Cher à Victor e Léo. Adora uniformes e ternos. Viciado em viagens. Postagens às quartas.

Publicado em julho 25, 2012, em Geral, The Serious. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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