Abstinência

Deitado em minha cama, a única visão que tinha além da mobília de meu quarto, era a da paisagem que a janela me proporcionava. O crepúsculo se instalava, as nuvens no céu brincavam com as cores, variando entre tons róseos, amarelos e lilases. A janela era a moldura e a imagem enquadrada, estava ali, só para eu contemplar.

Dentro de mim, as cores eram diferentes. Enquanto a paleta de um pintor se esboçava do lado de fora, no meu interior estava tudo acinzentado, assim como minha amada cidade melancólica. Havia vida, mas era imperceptível dentro do turbilhão de emoções e dúvidas. O meu querer era maior que o meu poder e isso me tornava impotente.

A boca estava seca, pela falta do beijo. A pele estava arrepiada, como se estivesse com frio, pela falta do abraço. O corpo estremecia, formigava, pela falta do toque. Os olhos não possuíam mais o mesmo brilho, porque o dono de meus sentimentos já não estava ali. Meus gritos silenciosos ecoavam pelo breu de sua ausência.

Decido me levantar; As pernas estremecem, o corpo não tem equilíbrio, os braços estão inertes. A apatia corrói a alma. A paixão havia se tornado uma obsessão; não dormia, não estudava, não comia; era impossível respirar, uma vez que o oxigênio não se fazia presente.

Me olho no espelho: onde está o garoto sonhador, que tinha um sorriso sincero nos lábios e vontade de vencer? Onde está o homem responsável, que não se abalava com simples sentimentos tipicamente adolescentes? Onde está o menino, que acreditava veemente em contos de fadas? Perdidos, creio eu, na imensidão da dor.

Então, ouço passos. Ninguém deveria estar ali. Eu queria, eu precisava, era vital estar sozinho nesse momento. Por que não me deixavam em paz? Será que nenhum deles havia uma vez na vida sofrido por amor?

Tudo volta a mente: as experiências passadas, os traumas, o sofrimento, a angústia e as dúvidas de não saber como proceder; a impotência toma conta novamente. A maçaneta em estilo colonial gira, a porta se abre. O perfume invade o quarto, eu o reconheço, ele me trás de volta a consciência.

Antes que eu tenha a chance de falar, de me exaltar, de expor minhas dúvidas, ele coloca o dedo em meus lábios em sinal de silêncio e sorri. Como se adivinhasse meus pensamentos, diz que estará ali, comigo, do modo como os outros não estiveram.

Já não sinto mais sede, pois possuo seus beijos. Já não sinto mais frio, pois estou aquecido por seu abraço. O corpo está calmo, pois possui o toque. Os olhos voltam a brilhar, pois há felicidade. E os gritos silenciosos dão lugar a uma canção, que ecoa pelos jardins, onde eu ando de mãos dadas, sob o céu estrelado e a lua que reflete no lago límpido e calmo, com o meu salvador.

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Sobre The Serious

Capricorniano nato, organizado e extremamente perfeccionista. Idealizador, que quer conhecer o mundo todo. Turismólogo por formação. Brasileiro e orgulhoso disso! Ama bife de picanha com arroz, feijão, farofa e batata frita e não abre mão de uma boa dose de Absolut, seja com coca, com suco, com gelo. Leitor ávido de todos os tipos de livro. Ouve todo tipo de música, de Cher à Victor e Léo. Adora uniformes e ternos. Viciado em viagens. Postagens às quartas.

Publicado em outubro 17, 2012, em Pensamentos, The Serious. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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