Arquivo mensal: novembro 2012

Virgindade

Engana-se quem pensa que perdeu a virgindade na primeira vez que esteve em um ato sexual. A virgindade é considerada um tabu desde o começo das civilizações; é nela que está focada toda a inocência, pureza e castidade, normalmente exigida das mulheres e mal vista nos homens.

O conceito de virgindade deveria ir além: quem se lembra de como era antes de perdê-la? Quem se lembra dos sonhos que tinha em relação ao amor, das expectativas, das vontades do conto-de-fadas?

Eu perdi minha virgindade muito depois de ter minha primeira relação sexual. Percebi que ela estava perdida, quando já não me importava mais com a data do primeiro beijo, com a entrega de um bombom no começo de um encontro, quando meu olhar, antes tão caloroso, havia se tornado frio.

Percebi também que minha virgindade foi perdida no momento em que entreguei-me, pela primeira vez. Aí está a verdadeira virgindade: entregar-se, de corpo e alma, sem medo, a alguém. Naquele momento, corre-se o risco de perder toda a magia existente dentro do seu ser, de se expor de uma forma antes não pensada, de deixar cair todas as armaduras tão densas construídas para proteger-se.

Assim, eu sei que, quem teve seu primeiro ato sexual baseado apenas no sexo, não perdeu a virgindade; só atravessou uma etapa que qualquer ser vivo atravessa. A castidade, a inocência, está baseada em outra coisa: no fazer amor, no estar junto, no ceder seu tempo e sua atenção e abrir mão de tudo para girar em torno de alguém.

Hoje, eu luto para recuperar minha inocência. Quero de novo poder me encantar, me surpreender, me apaixonar sem medo do que vem a seguir. Talvez seja com isso que devemos nos preocupar: em deixar as armaduras caírem mais uma vez, ao invés de nos importarmos tanto com o sexo, tão banalizado hoje em dia.

Por isso, proponho a nova virgindade, que deve manter-se ligada ao sentimento, ao compromisso e comprometimento, a acreditar no amor como quando ainda se era uma criança sonhando com seu príncipe encantado. O que nos diferencia dos outros seres vivos do planeta é isso e é nisso que devemos nos focar: amarmos e sermos amados, sem perder a inocência, a vontade de ser e de fazer feliz, sempre.

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Amores e sapatos

Comprei um All Star novo que, como todo bom e lindo All Star, está apertando meus dedos do pé até a alma. Dizem que ele faz isso pra laciar e depois ficar perfeito, como todo bom e lindo All Star.

Enquanto meus pés doíam e eu ia para o trabalho de ônibus, navegando pelo Instagram, vi uma frase que condizia muito com meu momento “apertado”. Não me lembro bem, mas dizia mais ou menos assim:

“Insistir em um amor que não dá certo é como insistir em usar um sapato lindo, mas que está apertado para os nossos pés. Por mais que o usar nos faça sentir-se melhor perante a sociedade, sabemos que ele está apertado. Machucando nossos dedos, causando bolhas e as vezes, fazendo sangrar. Enquanto os calçamos, desejamos estar descalços, livres. Pois sabemos que isso é o melhor para nossos pés cansados”.

Li isso e olhei para os meus pés. No momento, eu calçava um All Star novinho, recém-comprado, como se fosse um amor recém-conquistado, desfrutando daquelas primeiras semanas de descobertas. Mas era esse mesmo All Star que estava apertando meus pés. Chegava a incomodar, mas eu sabia que era por pouco tempo. Isso aconteceria até meus pés se acostumarem a ele e ele se acostumasse aos meus pés. Até que nossa relação “laciasse”.

No amor não é assim? Até que tudo entre nos eixos é necessário que cada lado ceda um pouquinho, aperte aqui e aperte ali. As vezes machuca, faz bolha, mas a gente sabe que no fim, vai ficar tudo certo.

Sabe porque? Por que sabemos que é nosso número, que não tem como dar errado. Se usamos 39, provamos o 39 e compramos o 39, é questão de tempo até que o sapato se torne indispensável na nossa vida e na nossa rotina.

O problema existe quando insistimos em um erro. É como uma pessoa que hoje usa 39, querer usar seu sapato 37 da adolescência, que por mais bonito e na moda que esteja, vai lhe causar dores. Infortúnios. Machucados. Sangramentos indesejados.

No fundo, precisamos aprender a desapegar de nossos sapatos antigos. Por mais que tenhamos gostado deles, se eles já nos servem, vamos passar para frente. Tem como que pode ser feliz com aquilo que já foi nosso. Desapegar também dos amores, ficar mais descalços, mais leves e mais livres.

Só precisamos tomar cuidado para que nosso amor não seja perecível como um All Star velho.

O tempo e as estações

Queria apenas que o tempo voasse mais baixo, mais lento, sem tanta violência. Em que ponto os dias começaram a se tornar horas? E as horas em simples segundos, perdidos em trocas sinceras de carinho, que agora, eu sentia imensa falta?

Longe de meu corpo físico, ele seguia seu caminho, seu destino, correndo atrás de seus sonhos. O elo se tornava fraco, quase se arrebentava, de tanto que se esticava em quanto mais ele se afastava. Na minha alma, ainda sentia sua presença, sabia que pensava em mim, por tudo ter sido tirado de nós com tamanha brutalidade que não tivemos a oportunidade de…tentar.

Podia ouvir sua risada quando eu dizia besteiras apenas para ver seu sorriso. Conseguia ainda ver a expressão séria, quando lhe contava algo que não aprovava. O olhar brilhante, quando me contava de seus planos. O abraço, que poderia acolher o mundo, mas que pertencia só a mim. O beijo, tão suave que me fazia único, tão intenso que me fazia desejado. O seu jeito, seu encanto. O paladar, os lábios, a pele, o vínculo. Tudo se tornando tão distante, como um sonho.

O que tínhamos poderia ser comparado com o verão, quente, intenso, mas, assim como as estações devem seguir o ciclo, o que era nosso, também deveria se modificar. O verão estava se transformando em outono com sua partida, que se transformaria em inverno com sua ausência. Mas o que mantinha minha esperança era a primavera, que o traria de volta, para que o verão enfim, pudesse retornar.

Inesperado

Eu quero o inesperado. Quero o novo. Quero o que está fora do script.

Já não quero mais ir pra balada num sábado a noite já sabendo que possivelmente ficarei com alguém, trocarei telefone, Facebook e poderemos sair durante a semana. Isso é tão óbvio.

Eu quero algo novo, algo que fuja daquilo que estou acostumado e que já espero. Eu quero ser surpreendido.

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Nostalgia

Hoje acordei nostálgico.

Senti saudade da infância, das brincadeiras com os primos, de ajudar a vovó a raspar a tigela do bolo de chocolate que estava no forno; das tardes vendo filme, jogando tazzo, brincando de futebol com bolinha de papel. Da alegria dos banhos de chuva de verão, do medo das tempestades, da ansiedade pelo sol. Da falta de preocupação, da falta de medo do futuro, de como aproveitar tão bem o presente e de não remoer o passado.

Saudade da escola, do dia que antecedia o primeiro dia de aula, onde a ansiedade não deixava nem dormir. Dos primeiros amiguinhos, da professora tão querida e amável, do conhecimento das aulas, do recreio, das pegadinhas, das broncas por alguma travessura.

Saudade da adolescência, do primeiro beijo, das mudanças assustadoras no corpo, das brigas com amigos que seriam eternas, mas que duravam só até o dia seguinte. Saudade das inseguranças, dos anseios, da vontade de ser adulto. Saudade das viagens, dos pais tão cautelosos e de mim tão despreocupado.

Saudade dos primeiros anos de faculdade, da primeira aula de carro, dos exames assustadores do Tiro de Guerra, da perda da virgindade, das risadas, do primeiro porre, do primeiro namorado e da primeira desilusão amorosa. Saudade dos entes que já se foram e dos amigos com os quais não falo mais. Saudade.

Tenho saudade de tanta coisa que a nostalgia sempre vem acompanhada da amiga melancolia. E dói, bem lá no âmago. Mas é uma dor gostosa, que nos faz sorrir, chorar, relembrar.

Ah! Essa nostalgia, que surge sem ser chamada, aperta nosso coração e torna o ar mais rarefeito. Mas que também serve pra nos lembrar que a vida tem momentos bons, que devem sempre ser lembrados e revividos, para nos dar força para seguir em frente.

X-tatic Process

Não posso dizer que sou o maior fã de Madonna, mas a alguns anos, um amigo me apresentou uma música dela que realmente me tocou, me fez refletir sobre o modo que eu via e lidava com meus relacionamentos e as pessoas com quem eu me relacionava.

Quem já ouviu X-tatic Process? Não é uma das músicas mais famosas dela, mas com certeza, merece crédito, porque é aquele tipo de música que nos faz parar e prestar atenção na letra. Pra quem não ouviu, segue o link:

Toda vez que eu termino um relacionamento que me fez sofrer, eu tenho uma lista de músicas que ouço em uma ordem:

1. Músicas para sofrer
2. Músicas para se motivar
3. Músicas para se valorizar

E por mais que essa música esteja enquadrada na terceira fase, é sempre a primeira que eu escuto. E por que? Preste atenção na letra. Ela começa descrevendo como todos nós nos sentimos no começo de um relacionamento. Como nos portar? O que faz a pessoa rir? O que fazer para agradar? E muitas vezes, para responder essas perguntas, criamos um novo “eu”:

Eu não sou eu mesma quando você está por perto
Eu não sou eu mesma em uma multidão
Eu não sou eu mesma, e não sei como
Eu não sou eu mesma agora

Nesse ciclo vicioso de querer provar que somos o que a pessoa sonhou para si, acabamos nos perdendo. É nesse ponto que deixamos de ser interessantes: esquecemos que o que fez a pessoa se aproximar foi justamente o que éramos. E ela começa a se afastar, mas não sabemos exatamente porquê, afinal, nos tornamos o que ela esperava que nos tornássemos. Até que a ficha cai:

Eu sempre desejei encontrar
Alguém tão bonito quanto você
Mas no processo esqueci
Que eu também era especial

Este é o ponto. Não podemos deixar de ser quem somos por alguém. Devemos mudar, melhorar e evoluir, por nós. Se, quem gostamos, não é capaz de aceitar-nos como somos, será que essa pessoa realmente é capaz de nos amar incondicionalmente ou apenas quer nos moldar?

Eu sempre desejei encontrar
Alguém tão talentoso quanto você
Mas no processo esqueci
Que eu era tão boa quanto você

Por isso, sempre que escuto essa música, percebo que se terminou, a pessoa não foi capaz de ver tudo que eu podia oferecer. Aí respiro fundo, sorrio e ergo a cabeça novamente, afinal, eu sei que sou tão bom e especial como qualquer outra pessoa na face da Terra.

E sei que um dia, vou encontrar alguém que seja capaz de reconhecer isso, entre meus defeitos e qualidades.