A história do macaco

Às vezes estamos tão imersos em nossos problemas e tristezas que passamos a olhar e a julgar todos com as lentes do mau humor

Um sujeito dirige de madrugada por uma estrada erma quando descobre que está com o pneu furado e sem macaco. Desesperado, enxerga uma luz ao longe. Deve ser uma casa. Começa a caminhada rumo à salvação, quando lhe ocorre que o julgarão inconveniente por acordá-los àquela hora, sendo um estranho pedindo um macaco. Talvez atirem, pensando ser um ladrão. Pode estar interrompendo um casal que namora e irão odiá-lo. Segue seu rumo imaginando cenários terríveis e que irão lhe negar o pedido, mas mesmo assim bate na porta. Quando ela se abre, nosso viajante já está furioso com os moradores e convicto de que irão maltratá-lo. A primeira coisa que ele diz é: “Quer saber de uma coisa? Pegue esse seu macaco e enfia…!”

Essa é uma anedota antiga, mas muito bem nos ilustra. Quantas vezes precisamos de uma mão amiga e supomos antecipadamente que nos será negada? Em vez de pedir ajuda, agredimos a quem nos quer bem, mal interpretamos seus atos, convictos de que traduzem rejeição ou má vontade.

Quando infelizes, olhamos tudo e todos com as lentes do mau humor e do ressentimento. Alguém deve ser culpado pela tristeza que sentimos. Sem perceber, odiamos todo mundo. Por que, então, não haveriam eles de sentir o mesmo em relação a nós? Melhor ainda, preferimos pensar que são os outros que odeiam. Aos próprios olhos, somos anjos que só querem o bem do próximo. Atribuir seus sentimentos ao outro é uma “projeção”: sentir que vem de fora o que está dentro. Considerar-se alvo de intenções ruins por parte dos outros não deixa de ser uma paranoia, forma da loucura que se serve fartamente da projeção.

Paranoico é o sujeito que acha que o mundo conspira contra ele. Nessa visão delirante, tudo gira em torno de si. Ele possui a certeza de ser o umbigo do universo. Alguém tão importante só pode ser a reencarnação de Jesus, John Lennon ou Joana D’Arc, conforme o gosto do freguês. Dizemos que ele tem o delírio de perseguição, pois trata-se de alguém sempre alerta, que precisa ficar esperto para não sucumbir.

Mais triste é dar-se conta da paranoia cotidiana entre aqueles ditos normais. Boa parte do tempo os outros não querem nosso mal, nem nosso bem, simplesmente estão ocupados com outra coisa que não nossa pessoa. Os outros são como os moradores daquela casa: até abrir a porta e escutar o que queremos, não estão nem aí para nós. Mas, uma vez informados de nossos pedidos, necessidades e queixas, em geral há em volta gente boa com quem contar. Teremos o macaco de que precisamos e, não duvido, ajuda para trocar o pneu.

Autora: Diana Corso, revista Vida Simples.

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Sobre The Serious

Capricorniano nato, organizado e extremamente perfeccionista. Idealizador, que quer conhecer o mundo todo. Turismólogo por formação. Brasileiro e orgulhoso disso! Ama bife de picanha com arroz, feijão, farofa e batata frita e não abre mão de uma boa dose de Absolut, seja com coca, com suco, com gelo. Leitor ávido de todos os tipos de livro. Ouve todo tipo de música, de Cher à Victor e Léo. Adora uniformes e ternos. Viciado em viagens. Postagens às quartas.

Publicado em fevereiro 13, 2013, em Geral, The Serious. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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