A difícil tarefa de estar comigo

Depois de um longo e demorado banho quente, saí do Box com o roupão que uso normalmente. Parei na frente do espelho e passei a mão para retirar o excesso de vapor, querendo desvendar a imagem oculta.

Tirei lentamente o roupão. Cabelo normal, castanho, rebelde. Olhos normais, castanhos, opacos. Pele muito branca, dando contraste em tudo, exceto no revestimento da parede.

Prestei mais atenção na imagem refletida, mais do que meus olhos conseguiam ver e repeti mentalmente: “como é difícil estar comigo”. Procurei algo anormal em meu corpo, na minha mente, algo que pudesse explicar essa sensação.

Me senti culpado por esse pensamento me fazer tão mal. Me senti desolado, triste, melancólico, raivoso, mas acima de tudo, injustiçado. Achei injusto o que a vida me reservava naquele momento. Porque eu não podia me amar como eu era, sem exigir tanto de mim?

Mais do que a sociedade era capaz de julgar, eu era meu pior inquisidor e fim. A dura realidade dava um tapa em minha cara. Como quem puxa um esparadrapo de uma só vez, para sentir a dor de uma vez só.

A outra voz na minha mente dizia: “ah, me poupe!”. Tanta coisa pra fazer, trabalho atrasado, roupa pra lavar e guardar e eu lá, em pé na frente do espelho pensando em como era difícil estar comigo, como se pensar nessa frase milhões de vezes fosse ajudar a aceitar quem sou ou mudar a realidade.

Procurei possibilidades, brechas. E se eu fosse atrás de qualquer pessoa, que massageasse meu ego, que me elogiasse e eu sorrisse em retorno, só pra aumentar minha auto-estima? “Que isso!” – a voz disse – “Que pensamento mais baixo!”. Se quisesse algo assim, compraria um boneco inflável.

Mas como lidar com a rejeição quando ela vem de dentro? Como lidar com o próprio reflexo no espelho? Como lidar com a auto-estima ou a falta dela? Como tentar pensar diferente quando o próprio reflexo te olha maldosamente e diz: “você não é bom o suficiente”.

E logo eu, que achava que ter um bom caráter, estudo e bom papo eram suficientes, me sentia perdido em um oceano profundo que sou eu mesmo. “Como é difícil estar comigo”, pensei novamente.

Sem saber quanto tempo esse pensamento iria me perseguir, saí do transe e voltei à realidade. Me troquei e fui até o supermercado atrás do único que não me julgaria pela minha neurose e que preencheria momentaneamente esse vazio: chocolate.

Devorei a barra rapidamente assistindo um episódio de Grey’s Anatomy, voltando ao pensamento do começo da crônica mais rapidamente do que esperava.

Como é difícil estar comigo.

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Sobre The Serious

Capricorniano nato, organizado e extremamente perfeccionista. Idealizador, que quer conhecer o mundo todo. Turismólogo por formação. Brasileiro e orgulhoso disso! Ama bife de picanha com arroz, feijão, farofa e batata frita e não abre mão de uma boa dose de Absolut, seja com coca, com suco, com gelo. Leitor ávido de todos os tipos de livro. Ouve todo tipo de música, de Cher à Victor e Léo. Adora uniformes e ternos. Viciado em viagens. Postagens às quartas.

Publicado em abril 24, 2013, em Pensamentos, The Serious. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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