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Parte III – Surge o Garoto da Faculdade

Nessa época,16 anos (quase 17), em que eu tinha bons amigos e uma namorada, um desejo latente de sair com um cara e toda a pressão em casa devido aos vestibulares e o desejo dos meus pais (e meu também) de estudar em uma universidade pública, eu não soube levar tudo. Meus amigos reclamavam da minha ausência, minha namorada terminou comigo porque eu não estava sendo bom para ela (e não tem sentimento que consiga resistir à frieza que eu estava proporcionando).

Precisava acertar as coisas, e pra isso, precisava de um escape. Resolvi ceder ao tal desejo e, pelo finado Orkut, com um perfil fake, conheci esse garoto da faculdade da minha cidade. Estudante de contabilidade, 20 anos, olhos claros, ombros largos, barba por fazer, bom papo. Me deixei levar.

Saímos a primeira vez na festa de peão da minha cidade, que é bem tradicional e ocorre todo ano. (Cenário clássico do interior, rs). Ele estava com alguns amigos assistindo ao show (que geralmente é sertanejo). Ele me ligou, pediu que eu fosse, queria me ver, não queria assistir ao show. Estava em casa sem fazer nada, e tratei logo de me arrumar e ir.

Ficamos umas duas horas andando, conversando, mas não passamos disso. Ele não queria arranjar um lugar escondido, tinha medo de alguém ver por causa do tanto de movimento ali. Entendi seu argumento, e dali voltei pra casa. Mas não precisava de mais. Vê-lo ao vivo, saber que ele era real e que ele tinha interesse em mim. E a conversa fluiu tão naturalmente. Eu já estava balançado.

Uma semana depois saímos andar de carro, e finalmente rolou o primeiro beijo. Foi até engraçado, eu queria muito que acontecesse, e ele todo inseguro de alguém ver. (No distrito industrial? Às 11 da noite? Chances mínimas de alguém [e ainda mais conhecido] estar por ali, mas tudo bem )rs.

Aquela pegada forte na nuca, com um carinho especial. Um abraço forte, eu tava protegido ali com ele. Ele não tinha pressa. Se ele queria impressionar, conseguiu. Foi perfeito. Foi incrível. Nenhuma menina tinha conseguido me proporcionar tal sensação. A barba roçando no meu rosto e no meu pescoço, os braços dele me seguravam. Eu não queria sair dali nunca mais. O perfume dele impregnava o carro, e também minhas roupas.

Cheguei em casa, deitei, mas não dormia. Estava eufórico. Ficava repassando a cena. Cheirava minha camiseta e se lembrava do tanto que ele era bonito. Do tanto que eu gostava de conversar com ele. Conclui facilmente que eu gostava dele. A mensagem de boa noite foi o estopim para me deixar nas nuvens uma semana. E assim seguiram-se mais quatro.

Pobre dos ingênuos. Eu era um.

Grande abraço, e até a parte final, meus leitores! ;*

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Parte II – E vieram os 16

Era dezembro, transição entre minha sexta série e sétima série, eu tinha 12 anos. Convidados meninos para aniversário da piscina de uma amiga minha que fazia aniversário: eu e ele. Ele era um menino da minha sala chamado Renan que todos diziam ser gay. Achava exagerado o que falavam no menino. Pessoas falam demais e conseguem ser venenosas, e era algo que eu já tinha pra mim desde cedo.

Clássica festa de piscina, sem nada de diferente, até a hora de trocarmos para ir embora.

Entramos juntos no vestiário. Ele veio jogando uma ideia meio boba, algo que hoje talvez fosse um xaveco dos ruins, de que isso era normal, e eu deixei. Ele era um ano mais velho, e seja qual fosse a motivação, ele sabia o que tava falando. Garoto “pra frente”. E foi bom, não vou mentir não. E ele começou a movimentar, e eu gostei. Gostei muito. E eu gozei. Não, não é pra ser um conto erótico, mas aconteceu. Aquela culpa, a velha, adormecida, veio a tona. Só que muito mais forte.

Eu fui embora, mal me despedi e corri pra casa. Era “errado”, como eu podia!! Me fechei no quarto para chorar. “O que eu tinha feito?” Dormi para tentar acordar menos culpado. Mas parei. Sem mais fotos, sem mais pensamentos gays, era o que eu tinha decidido. Evitava o garoto a todo custo na escola. Se, às vezes, eu me masturbava no banho com o velho desejo homo como estímulo, logo me vinha à cabeça a cena no vestiário e eu ficava com a sensação de arrependimento, de culpa.  Quem eu queria enganar, eu era uma criança ainda. Nada disso de transição, de aceitação. Eu não estava pronto pra lidar. Na mesma época meus pais entram numa suposta crise e minha mãe tinha vindo até mim conversar que talvez eles pudessem se separar. Era informação demais pra mim. Me fechei e voltei a Igreja, procurando conforto. Até os meus 16 anos. Não se pode fugir, não é mesmo?

Talvez todo esse fechamento, essa negação pelo sentimento gay me fez gostar do corpo feminino. Não foi assim, rápido, mas um dia estava eu lá, vendo pornô hétero. Me enganando? Dizem que não existem os tais bissexuais, mas não vou discutir isso, por hora. Comecei a ficar com meninas, era bom, eu gostava da companhia, mas percebia que não estava completo. Eu precisava me entender, mas que, fossem quais fossem meus pensamentos, eu não me martirizasse por eles.

Com 15 anos (pouco depois que dei meus primeiros beijos heteros), conseguia não mais pensar em culpa. Entrar no chat UOL e conversar com estranhos mais vividos me fez ter novas opiniões, ver que não tinha nada demais. Que era mais normal do que se imaginava.  Meus pais já não me forçavam ir à Igreja, eu preferia não ir também. Eu não era uma aberração nem nada. Só era um garoto querendo ser feliz. Eu começava a conversar disso com alguns amigos na escola e tudo estava bem. Claro que um ou outro não sabia direito como lidar, mas pelo menos, até então, guardavam o segredo, quando eu pedia.

Aos 16 e no terceiro colegial, namorava uma menina, e, depois de 5 meses, terminamos.  Era a tensão do vestibular me assombrando a ponto de eu estar deixando de ser bom amigo, filho e namorado. Não estou querendo me justificar, também. Errei.

E no meio dessa tensão, no finado Orkut, surge um cara da faculdade daqui da minha cidade. Mais velho (20 anos na época), bom papo, olho azul, costas largas. Me levou fácil, se querem saber. Eu queria que acontecesse, eu estava (re-)explorando um lado da minha sexualidade que eu tinha inibido e estava gostando.

E o que veio daí, fica pro último post da minha trajetória de descoberta!

Abraços e beijos, meus queridos leitores! Opiniões, críticas, sugestões, sempre bem-vindas!

Parte I – É isso que você quer pra sua vida?

“Não”, era minha resposta.

Quando eu era pequeno, seja em desenhos ou filmes que eu assistia, a figura masculina me chamava a atenção. Pra quem se lembra      do Leo, o Power Ranger Vermelho da Galáxia Perdida, já me balançava. Mas não era desejo, era uma admiração. Dos meus amigos da infância, todos eram maiores. Acho que eu gostava da sensação de estar “protegido” andando com eles.Eu tinha essa admiração. O corpo masculino era interessante. Mas eu não me achava gay. Eu não me achava nada. Se estou falando disso hoje, é porque são os olhos de hoje. Não faria essa análise em 2012 com minha cabeça de 2000, nem poderia.

Psicologias à parte, eu me encaixo no perfil de mãe super protetora e pai ausente; talvez fosse algo natural eu buscar essa figura masculina sem necessariamente ser homossexual (leigo falando aqui, Behavioristas de plantão).

De família tradicional católica fervorosa (podia ser pior, não?), ser gay não era bem visto. Lembro-me dos meus primos mais velhos já fazerem piadinhas do assunto.

Pois bem, com 12 anos e esperando os sábados para acessar a velha internet discada, o instinto já se refletia no google images … o mais engraçado era que, além da dificuldade em encontrar na época (tente hoje com o safesearch desativado para você ver a facilidade), eu era educado nas minhas buscas, só faltava pedir “Por favor, google”. Melhorei nas pesquisas com o passar do tempo.Mas sempre pesquisava fotos de homens. O corpo feminino foi começar a ter algum efeito mais tarde, mas falamos disso depois.

A velha Igreja, indo em caminho contrário, me deixava com o sentimento de culpa. No entanto, o prazer que eu conseguia com aquelas fotos não podia deixar de acontecer, eu teria que conviver com a culpa. E a culpa foi ficando adormecida, adormecida, e sumiu.

Se a adolescência já é complicada sendo heterossexual, imagina começá-la sendo gay. E sem meios de nos expressar, somos obrigados a nos fechar e, secretamente,  ponderar crenças, desejos, a nossa realidade, para conseguir viver.

E então,nesse ano, paralelo a tudo isso, começava um boato na minha sala de que um menino era gay. Os meninos, na educação física, ficavam comentando. Achava que era maldade porque o garoto só andava com meninas. Estereótipo inconveniente atacando.

Chega, pois, dezembro. 13 anos, transição entre sexta e sétima série.  Sou convidado pra uma festa na piscina por uma amiga. Convidados meninos: eu e o tal menino.  Mas, o que aconteceu lá, fica pra uma próxima história.

Obrigado pela atenção, e um obrigado especial aos autores pelo convite para colaborar. Espero cumprir às expectativas de todos! Grande abraço galerinha (:

Gay eu? Claro!

Não consigo definir uma fase em que me descobri como gay, fico perdido entre quando tinha uns 6 anos e achava o Vinícius da minha sala o menino mais bonito do mundo ou quando aos 9 já ia fazer “brincadeiras” com meu primo nos fundos da casa da minha vó. Este que foi a primeira pessoa com quem tive uma relação homossexual, aos 14 anos de idade. Sim, PASME!

Quanto ao me aceitar como gay, isso pra mim nunca foi novidade. Claro que eu tive aquela coisa de “Meu Deus, eu sou uma aberração!”, mas não acredito que foi uma das piores fases da minha vida, minha própria aceitação veio suave e clara pra mim. Sou gay, encarei os fatos e vamos a luta por felicidade. O que mais me incomodou nessa cronologia foi a forma como minha mãe se mostrou surpresa pra uma coisa, que pra mim ela sempre se mostrou natural.

Desde pequeno sempre vi minha mãe se dar bem com gays, ela até tinha amigos próximos que sempre a via conversando, por isso acreditei que minha homossexualidade seria assumida num ambiente livre de preconceitos, mas não foi. Meu pai também sempre muito ignorante (sim usarei esta palavra), jamais aceitaria ter um filho gay, pra ele seria um martírio ter que dar a cara a tapa pra todo mundo. Porém, gente, quem nunca percebeu que o filho mais velho dele era um tanto “diferente”? Não que eu seja afetado, mas minha homossexualidade sempre ficou muito as claras. Hoje, graças à Deus, sou assumido pra todos, desde meus avós aos meus primos que ainda nem falam e não enfrento qualquer preconceito na minha família, se sentir que tenho também, simplesmente me afasto do ser, por que de boa, não é parente pra mim.

Pra mim, ser gay sempre foi um motivo de orgulho, já me envergonhei às vezes, principalmente naquela época chata da escola. Mas me aceitando do jeito que sempre me aceitei ser diferente pra mim era o máximo. Tinha vontade de gritar para os meninos “MOOOOORRAM que eu sou viadinho sim e vocês são péssimos perto de mim!” É… típico de um aquariano isso. Aliás, logo que me assumi em casa, isso aos 17 anos, contei para os meus colegas de classe e disse pra eles que eu era gay sim e que todos de casa já sabiam, finalmente acabaram-se todos os motivos daquelas piadas que aguentei desde criança. Deveria ter feito isso aos 9 anos de idade (risos).

Este é meu texto de entrada como colaborador no Estação 47, estou muito feliz pelo convite propriamente feito pelo The Serious. Sempre vou trazer um pouco das coisas que este demente apaixonado aqui escreve! 😉

The First Joke

São tantas as palavras que as vezes fica difícil começar. Mas vou tentar!

Parece até ironia ao dizer que até a forma como tudo começou foi com uma piada!

Eis que um dia, lá estava o jovem…eu… na casa de um amigo, aonde eu iria pernoitar. Enfim, estava animado, pois meu amigo tinha acabado de instalar speedy em sua casa ( e sim, naquela época o speedy era artigo de luxo!). Tudo estava planejado, afinal, eramos jovens (bem jovens) cheio de hormônios e com internet, isso só poderia significar uma coisa: Pornô!

Ok, provavelmente você, leitor, deve estar imaginando o rumo previsível dessa história, mas não é tão comum como parece.

Voltando, tudo estava planejado, até o momento em que veio a piada: A mãe do meu amigo iria sair pra curtir a noite, então, como toda boa mãe, antes de sair deu as recomendações: “Bom crianças, divirtam-se, se tiverme fome, vão a geladeira, comportem-se e olha lá esse computador ein, se quiserem vão ao site da G-Magazine, recomendo”.

Obviamente era uma piada dela, que meu amigo muito reclamou, e eu inicialmente também, mas aquilo ficou na minha mente. Eis que um dia eu tive internet banda larga em casa, e então resolvi seguir o conselho da mãe de meu amigo, e pronto, tudo começou! (Obs: naquele dia vimos só playboy)

Era engraçado, pois me sentia o maior pecador de todos, ao ver aquelas fotos e gostar!!!!!! Essa sensação seguiu por muito tempo, porém eram apenas fotos, eu apenas olhava e me atraía, não tinha nada de mais, né? hehehe

Até que em outro momento com outro amigo conheci o fatídico bate papo uol (sim, podem rir, eu falei que era piada) enquanto ele caçava meninas, eu reparei que a maioria eram boys atrás de boys, então, aproveitando meu anonimato e conforto do lar, resolvi entrar e caçar…amigos, apenas, amigos ! dizia que era HT, mas sem preconceitos. Tal situação durou bem e por um bom tempo até…até aquele dia!

Antes de continuar preciso comentar algumas coisas: Na época dos fatos descritos eu era bem diferente do que sou hoje, tanto em mentalidade como fisicamente. Eu era extremamente carente, sonhador e romântico utópico, porém muito mal apresentado fisicamente, acima do peso, péssimo gosto para roupas, óculos, aparelho (os malditos quadradinhos) e um corte de cabelo que é melhor nem comentar! Logo, eu era carente, mas não havia insana alma que se interessava em se aproximar de mim, a não ser um boy, que um dia demonstrou interesse. Oxe, como assim? Alguém querendo de fato ficar comigo, que está correndo atrás de mim? E não está dizendo que sou legal demais, que um dia encontrarei alguem tão legal quanto pra mim! OMG, o que fazer? Isso é muita novidade! Enfim, num ataque de loucura e carência aceitei o convite do boy, e rolou meu primeiro beijo e claro, o primeiro super ataque de paranoia!

Desde o beijo, fiz de tudo para não me aceitar, para fingir que nada tinha acontecido e que eu não me interessava pelos menininhos bonitinhos que passavam pela minha frente. Eis que o tempo passava, a paranoia aumentava, e eu não tinha com quem conversar, tudo parecia errado, confuso, até o momento em que resolvi voltar ao uol, onde encontrei outro boy, com quem o papo foi diferente, ainda sim, me apresentei como HT, e ele tb. Ótimo, eramos dois HTs open mind hehehe, com mesmas ambições, historias parecidas, até visual parecido. Tudo era tão parecido que até hj tenho orgulho de dizer que é praticamente meu irmão, pois foi ele quem me deu suporte para tudo que estava rolando, e claro, em troca ofereci tal suporte a ele, pois estavamos passando pela mesma situação. Bom, não só trocamos suporte, como também trocamos alguns meninos, mas isso é outra história 😉

Em frente ao espelho

Como tudo em minha vida, um dia acordei e senti que algo havia mudado.
Tinha deixado de ver aquilo que vivia como uma aventura. Não era, simplesmente, uma pessoa, um sentimento infantil, era desejo, era um querer que não conseguia controlar, uma atração. Tinha deixado de ser uma fase, como eu pensava até aquela manhã.

Tenho que confessar que me senti feliz, plenamente feliz, como se naquela momento em frente ao espelho eu tivesse vendo minha imagem pela primeira vez. Gostei do que vi. Sorri. Porém como todos nós sabemos, nem sempre, ser nós mesmos é fácil, ainda mais quando se é ‘diferente’. Caiu a ficha de que as barreiras e as lágrimas seriam intensas, senti medo de ferir quem tanto amava por ser quem eu acabava de descobrir.

Passaram – se os meses e a coragem não vinha até mim para eu contar tudo aos meus pais, aos meus amigos, as pessoas que eu tanto queria por perto. Acabei me afastando cada dia mais de todos e me aprisionando em meu mundo. Conheci outras pessoas, as quais passavam pelo mesmo que eu. Me apaixonei pela falsa sensação de liberdade, mas me faltava aquela aceitação. Eu me culpava por saber que não era o que deveria ser, pelo menos assim eu pensava. Como eu poderia gostar de algo que era errado? Como eu diria isso? Porque eu sentia o que sentia? E assim se passaram mais meses, anos, e a tentativa de me enquadrar, de ser como a maioria, continuava me matando e a cada manhã a imagem no espelho se tornava mais distorcida, menos eu.

E então a pior fase começou, queria fugir daquela dor de qualquer maneira, encontrei maneiras ilegais para isso, coisa que me arrependo até hoje. Mais um ano se passou e a dor apenas aumentava. Comecei a abstrair tudo. Vesti a mascara e mergulhei nos estudos. Ano de vestibular, com problemas em casa. Esqueci de mim. Mais um ano, cursinho pré – vestibular. Esqueci de mim. E então a reviravolta aconteceu, eu com 19 anos, com o mundo aos meus pés e a infelicidade em meu coração, conheci as pessoas que fariam eu ver tudo com outros olhos. Com os meus.

Conheci uma menina na internet, esta que hoje está entre as pessoas que mais amo no mundo, me apaixonei, nos conhecemos, ficamos, e um post mudaria tudo. Resumindo a desgraça mais bem vinda, meus pais descobriram, e o que eu mais temia foi o que me trouxe de volta. Obviamente não foi o melhor momento de todos, meus pais são ótimos, não que eles aceitaram de cara, mas respeitaram. Perceberam o que a maioria das pessoas não percebem, Não é uma escolha, Nasci assim, não sou por que quero ou por “modinha’, eles me conhecem sabem que eu não sou de ‘modinhas’.

E foi basicamente isso, aconteceu sem querer a descoberta deles e a minha durou anos, nem todos bons, por sinal pouquíssimos bons. Chorei muito até conseguir me olhar no espelho e me ver, ver realmente, sem medo, sem preconceito, sem sentir que eu estava errada.

Hoje quando me olho e tenho um flashback de tudo que passei, sinto aquela mesma felicidade que senti, e posso dizer que nestes segundos eu sou a pessoa mais feliz do mundo por ser GAY.

Contando para o mundo

Levou um tempo até que eu achasse ser possível contar por aí sobre a minha condição sexual. Meus pensamentos de quando isso deveria acontecer mudavam constantemente, dessa forma:

 

  • Irei contar quando sair da escola (que alternou para quando eu sair da faculdade);

Não crie metas desse tipo. Eu não sabia quem poderia encontrar na faculdade e as pessoas com quem cursei a escola não mudariam de opinião só porque já não estudávamos mais juntos; ou eles aceitariam ou não, independente disso.

 

  • Eu devo contar quando estiver namorando sério com alguém, para esse alguém me dar apoio;

Não é a melhor forma. Eu estaria depositando uma carga excessiva em uma pessoa que não merecia ter essa responsabilidade e depois que terminasse, sempre existiria a chance de eu cobrar a pessoa: “eu contei por você e agora você faz isso comigo?”, o que não seria nenhum pouco justo.

 

  • Eu devo contar quando estiver independente, porque eu não me preocuparei com a opinião e julgamento dos outros;

Não é verdade. Você sempre irá se preocupar com o que sua família pensa, sempre precisará dos conselhos dos seus pais, sempre os quererá por perto. E independência financeira não é sinônimo de independência e equilíbrio espiritual.

 

Comigo aconteceu da seguinte maneira: na escola mesmo eu já contei para alguns amigos, que continuaram a me tratar como sempre me trataram, pois para eles, a condição sexual não interferia na amizade que tínhamos, ou seja, eu continuava a ser a mesma pessoa de sempre.

Meus pais descobriram após uma briga que eu tive com meu irmão (quem disse que brigas não servem para coisas boas também?). Com a adrenalina correndo em minhas veias, tive vontade de deixar tudo claro e falei, aos 19 anos. A reação deles foi a melhor do que eu podia imaginar: disseram que me amavam, que isso não importava e o que queriam era que eu fosse feliz, independente de como eu acharia essa felicidade. Até meu irmão me apoiou e me defende até hoje, ou seja, para eles, eu também continuava a ser a mesma pessoa de sempre.

Entretanto, no meu local de trabalho e na própria faculdade, não foram todos que ficaram sabendo. Eu contei pra quem tive vontade de contar, no meu tempo.

Por isso, o conselho que posso dar a respeito desse assunto é: Conte, se você quiser contar. Não conte se não quiser.  Se quiser gritar ao mundo, GRITE. Se quiser manter em segredo, MANTENHA.

A vida é sua, você deve fazer o que for melhor pra você, sempre.

Normal? Eu sou normal! Mas nem sempre pensei assim…

Foi difícil aceitar que diferente dos meus amigos que contavam abertamente sobre as meninas que eles ficavam em festas que chamávamos de teens, eu nunca poderia dividir com eles sobre os meninos que eu ficava. Que enquanto eles desfilavam pela escola de mãos dadas com uma menina, eu nunca poderia fazer o mesmo, pois sofreria represália. Que enquanto meu irmão casaria na Igreja e daria netos aos meus pais, eu não poderia fazer a mesma coisa.

E eu sofri. Minhas notas na escola sentiram, meus amigos sentiram meu distanciamento, meus pais sentiram meu desespero. Em um primeiro momento, encarei como uma maldição. “Por que eu?”, eu pensava. O período de maior desgaste foram os seis primeiros meses após eu ter dito a mim mesmo: sou gay. E durou até o momento em que dei meu primeiro beijo gay, no segundo colegial. Após, com o fim do colegial e começo da faculdade, as coisas começaram a se encaixar melhor em minha cabeça.

E como uma supernova, eu eclodi, para um mundo novo, onde encontrei grandes amigos e pude descobrir quem realmente sou, com desejos, anseios, necessidades, como qualquer outro ser humano. A ideia que eu tinha de que na dúvida entre ficar do lado do mundo ou do meu lado em uma batalha, eu deveria apostar no mundo, nesse caso, mudou: eu deveria acreditar em mim e enfrentar o mundo, independente do que pudesse acontecer!

E o melhor: descobri que independente da minha condição sexual – pois realmente não é uma opção – , eu sou um ser capaz de ter caráter e moral, vivendo da melhor forma possível, atrás apenas de um ideal: ser feliz.

Meu momento

É. Eu sempre soube. Eu sempre fui. Pra mim, era natural. Sempre me interessei mais pelos meninos do que pelas meninas e só fui me sentir diferente na escola, quando meus amiguinhos vinham me falar sobre o que achavam das meninas e tudo mais.

Foi quando eu percebi que eu era diferente. Isso foi trágico. Desencadeou grandes sentimentos dentro de mim. Eu me afastei de mim e comecei a viver alguém que eu não era. Eu queria ser aceito.

Assim foi durante toda minha vida escolar, eu era e não queria ser. Eu queria ser como os outros meninos e para isso, eu buscava me aproximar deles, me tornar seu amigo, se possível, o melhor. Quem sabe assim, eu aprenderia a ser como eles? Bom, assim eu pensava.

Não adiantou. Nada mudou e eu continuava preso e infeliz, dentro de mim mesmo, dos meus livros e dos meus brinquedos. Nunca fui um criança solitária e isolada, sempre tive muitos amigos, mas sempre usei uma máscara, pra não mostrar quem eu era de verdade e pra não decepcionar aqueles que eu prezava tanto.

Na fase de minha adolescência, encontrei uma muleta que me serviu por 7 anos. A igreja. Eu podia não ficar com garotas, não ceder as investidas delas e nem dos meninos, quando tentavam me empurrar pra uma. Eu buscava ser puro e santo.

Passei pelo ensino fundamental e pelo ensino médio assim, diferente, não por ser o que eu era e sim por ser ‘santo’. Quando cheguei na faculdade, carregava dentro de mim muitos medos e angústias, afinal, poderia começar tudo de novo, os comentários e as indagações dos outros.

Não foi diferente. Todos dizem que a faculdade é o lugar onde exorcizamos os demônios, aprontamos e tudo mais, por que, ou se faz ali, ou não se faz mais.

Eu fiz o caminho inverso. Entrei em ostracismo e tentei provar, durante 4 anos, que eu era uma pessoa que eu não era. Eu tinha medo e ainda não era meu momento.

Sempre fui um enorme ponto de interrogação na mente das pessoas, e eu gostava disso. Só não gostava quando elas insistiam em decifrar a charada.

Imaginem só, passar 4 anos procurando esconder seu verdadeiro eu e com medo. Muito medo. Muitos querendo te ajudar e você não querendo ser ajudado. Complicado, não?

Enfim, chegou a formatura e automaticamente minha mente e minha alma se sentiram leves e juntas, decretaram, era o fim. O fim da máscara, o fim do medo e o fim do esconderijo. Agora, eu estava livre. Afinal, a faculdade havia acabado e dali, eu só levaria pra minha vida quem eu realmente queria e essas pessoas, mereciam me conhecer de verdade.

Por ironia do destino, ou não, no dia do baile…aconteceu o meu primeiro beijo gay. Foi diferente. Diferente de tudo que eu já havia sentido e provado. Daquele em dia em diante, eu me aceitei e não lutei mais contra mim mesmo. Eu era gay e não podia mudar isso. Era mais forte que eu e além de tudo, era bom.

Desde então eu tenho agido de uma forma diferente, passei a contar para os meus amigos mais próximos e tenho sido eu mesmo, pela primeira vez na vida, protagonista da minha própria história.

Como tudo começou

Talvez eu soubesse desde o início, desde as brincadeiras inocentes com o filho do caseiro com sete anos de idade. Talvez antes disso, quando eu preferia brincar sozinho atrás da minha cama ao invés de me misturar com o resto dos meninos no campo de futebol da chácara.

A  internet entrou em minha vida aos doze anos e abriu porta para uma grande experiência: eu podia conversar com pessoas que eu não sabia quem eram e ir atrás de uma coisa que eu ainda não entendia muito bem, mas que me dava uma sensação boa, que anos mais tarde fui descobrir que era o algo que chamamos de prazer.

Quando descobri que meu corpo poderia me dar prazer, meus pensamentos para que isso ocorresse eram difusos. Iam de coisas que eu sabia que eram “certas” a coisas que eu não entendia o porquê pensava: professores, homens que nunca vi, atores, desenhos animados…

Aos 16 anos, o choque: eu era. Eu sabia, no meu íntimo, sem precisar fazer nada. Pela maneira que eu olhava os meninos mais velhos na escola, pelo calor que eu sentia ao ver alguém sem camiseta na aula de Ed. Física ou pela televisão, pelas fotos que eu encontrava perdidas no espaço cibernético.

Mas eu não queria ser! E foi nessa crise existencial – que será discutida em outro post, aliada a internet e meus desejos secretos que dei meu primeiro beijo gay. Foi bom, com uma pessoa especial, mas ainda não achava correto. O pedido de namoro que ele fez à mim foi recusado. E assim, eu iniciei uma vida dupla, sendo uma coisa para a sociedade, amigos e família e outra, verdadeira, para mim, mas sempre lutando contra, querendo ser normal.